Dizem que tenho Alma de poeta. É possível, mas para além de poeta, sou mulher, fui criança, sou ser humano. Na grande maioria das vezes vejo e sinto coisas que só sei expressar por palavras, por imagens. É um jeito de ser... é o meu jeito de pôr a Alma no scriptum...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Os grilhões da querença

À flor da pele! - Foto de mcpial retirada do site olhares


Sei que te amei...não te explico, não me explico...explicações complicam a simplicidade de um coração que bate na presença de um pequeno som que se identifica de imediato, numa pequena parte do corpo que não necessita trazer acoplada toda a grandeza do resto, para se identificar como a tal... aquela que que nos faz vibrar sem toques , sem sequer necessitar da deslocação do sopro de ar que provocas...
O peito eleva-se acima das nuvens, numa eterna avidez do teu ar, que caminha em minha volta e me apura os sentidos.Todos os pedaços sensitivos em mim te auscultam, mantendo a distância, mas sentindo os sentidos todos, como poderosos marcadores da tua presença. Mas não estás , não foste, não és...presença imaginada dos atordoados temores das perdas, assim são as paixões e os sentidos, os corpos distantes, sonhados em uníssonos, mas nunca encontrados em avidez real. E o tempo passa, e o corpo apaga-se de vontades, os sentidos desmobilizam da sua dança de presenças activas e alertas, e fica o resto... esta saudade que pesa na imaginação que voa, sempre que a liberto dos grilhões da querença de deixar ir... ao sabor do vento...espalhar essa tempestade de sentidos que provocas à tua passagem...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A beira do abismo



Sim, já lá estive, à beira do abismo. Julguei que  a altura potenciasse a vertigem que sentia. Enganei-me. A paisagem arrancou-me do meu pesadelo e levou-me a voar em sonhos para outros mundos para outras paragens. A água que corria límpida ao longe em fervoroso transbordo hipnotizou-me, e o som da cadência da cascata levou-me em meditação. A vida, sempre a vida, o sonho sempre o sonho. O desespero das palavras presas num lugar onde não cabiam, a alma grande demais sem conseguir conter-se no coração humano que bate a um ritmo demasiado lento em relação aos pensamentos, à fúria de viver. Sim já lá estive...mas voltei inebriada, pela força da natureza que me ensinou que a vontade não serve só para fingir que se vive, a força vive dentro de nós transformando a nossa potência natural naquilo em que somos... E soltei as palavras , gritei-as ao vento para que as levasse para longe e com elas a necessidade de espreitar a beira do abismo, onde não me encaixo...


7 de Março de 2010
reeditado

sábado, 23 de outubro de 2010

Recordações




O telefone tocou e ela enroscou-se ainda mais nos lençois, como se desejasse que aquele barulho irritante parasse de vez. Mas o telefone não dava mostras de se querer calar. Sem vontade carregou no botão - estou?-
Do outro lado uma voz calma , mansa, de mulher respondeu-lhe. Havia qualquer coisa naquela voz que lhe parecia familiar, como se em milésimos de segundos a sua memória recuasse muitos e muitos anos. Num tubo em espiral passaram imagens há muito perdidas nas páginas passadas do tempo. Caiu exactamente naquele dia em que, entre brincadeiras na rua, onde ambas eram princesas, a chuva daqueles primeiros dias de Outubro começou a cair copiosamente, misturando o cheiros da Terra quente de um Verão ainda tão presente com a pureza da águas que as nuvens deixavam cair anunciando uma nova época. À chuva, ambas de braços abertos a rir, ignoravam as vozes que as chamavam a casa, anunciando o fim das brincadeiras de rua... nesse ano tudo mudou, a mudança de vida dos pais dela levou-a para longe. Nunca mais lhe ouviu a voz ou o riso ou até a cara, e agora ali estava ela com a certeza que do outro lado da linha, ouvia aquela voz, como se a repetição continua das primeiras chuvas de Outono lhe tivessem trazido de volta as memórias. A vida é sempre uma surpresa, e a sua continua suposta repetição pode trazer de volta aqueles que à muito pensamos perdidos ou esquecidos.- " que bom que é ouvir de novo a tua voz !"...


Para a edição de Outubro da Fábrica de Letras

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

*Crónicas de uma terra qualquer * # 3

Foto de Guilherme Limas retirada do site olhares


Há terras que nascem ao pé do mar, umas à beirinha, quase que a molhar os pés na água fria e outras mais distantes, mas ainda ouvindo o seu burburinho em dias em que se sente mal-disposto. Mas há outras terras, que embora à beira-mar plantas ficam distantes, para lá dos montes, em beirais semi-fechados aos litorais onde não chega a cor nem a voz do mar.
Era ainda miúda e não pensava que a visão de uma coisa para mim tão natural como as ondas de um mar nesse dia enfurecido, pudessem causar nas expressões tanta surpresa, tanto mistério, tanta paixão. Falantes de uma mesma língua, com diferentes paisagens nos olhos, diferentes experiências de vida, assim eramos nós. Crianças em intercâmbio cultural... e o que é a cultura senão a troca de experiências, de gostos, de vivências, a troca do que a nós nos dizia muito, no pouco que ainda tinhamos visto do mundo e da vida.
Percebi facilmente a expressão do olhar de quem pela primeira vez viu o mar, quando o vi pela primeira vez. Correndo calmo e sereno, deitado no seu leito de paz, adornado pelos verdes sucalcos de onde pequenas bagas nasciam, entre o verde da paisagem, colorindo o horizonte por onde se olhava. E o céu e o verde que parecia descer pelos montes reflectia-se nas águas como se um enorme postal animado de vida se tratasse. E o silêncio, aquele silêncio pautado aqui e ali pelos homens que trabalham a terra, embelezando-a para se ver ao espelho no rio... Chamam-lhe de Ouro, porque não há outro que em si reflita tão mansa e fielmente os lugares valiosos por onde vai passando. Chamam-lhe Douro por que alimenta nas suas margens liquidos preciosos que alimentam um povo.
Ficou-me na memória como a mais preciosa de todas as fotos que guardei na minha mente...É este o grande valor de todos os intercâmbios, dar o que se tem, receber o que outros têm de melhor e guardar como parte da cultura pessoal que vamos alargando ao longo da vida.

Palavras

Há alturas em que as palavras faltam, vão-se. Como se o grande vazio que me preenche conquistasse o último resquicio de vida que sempre me sobra, que são as palavras que se formam, brotando continuamente da pedra em jeito de nascente de água, de onde invariavelme voltarão a nascer vontades e esperanças mesmo que incompreensíveis. Nessas alturas são outras palavras, as escritas, as pensadas pelos outros, que me dão alento... Porque se o maior veiculo de transmissão que temos é a linguagem, à que aproveitar todas as suas potencialidades, todas as suas formas sentidas e marcadas por sinais visiveis ou apenas perceptíveis aos mais sensíveis. A inteligência permitiu-nos a linguagem, que fomos moldando às inúmeras diferenças que apresentamos...Tantas formas de expressão... tantos pensamentos... todos válidos...todos verdadeiros pelo menos no momento em que são expressos, mesmo que depois se esfumem e não passem de momentos a ser vividos e interpretados por outros que se revejam nas palavras que alguém lançou ao vento...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma outra viagem









Foi a minha primeira grande viagem, a única até agora. Como em todas as minhas memórias guardo dela apenas as pequenas coisas e não as de monta como a grande maioria dos viajantes. Apenas o captado pelos olhos que me toca ao coração me fica guardado em forma de memória, tudo o resto se vai perdendo em finas areias de pó como se nunca se tivesse passado... é um passado perdido. Passei pela primeira vez o oceano, essa imensa massa de água que distancia terras, paisagens e pinta de cores e temperaturas diferentes o imenso mundo, mas que guarda para lá da lonjura, corações que batem ao mesmo ritmo que os nossos. 
Foi dos inúmeros descolares e aterrares que ganhei a única fobia que me conheço... um simples caixote de metal que transporta gentes pelo céu e que me faz perder a noção da realidade...mas não foi disso que vim falar aqui...
Foi o calor, que não se assusta com dias cinzentos, muito pelo contrário, ainda se assanha mais, foi o azul do mar a perder de vista que esconde um caldo sedoso que guarda promessas falsas de refresco, foi aquele verde quase a tocar o azul que se misturam num doce bailado do ir e vir ondulado... e foram as pessoas. Não aquelas programadas para agradar a todo e qualquer disparate requerido por uma cara meio pálida de bolsos cheios, as outras, aquelas que encontrei no mercado, guardado a ferro e fogo e onde cheguei apenas e só por pura teimosia.
Foi lá que o vi. Não teria na altura mais do que os poucos anos que o meu filho soma, será por esta altura um homem. Sentado junto à palmeira, fazendo de uma raiz mais curiosa das superficies o seu banco, devorava com tanta atenção um livro de escola que não pude deixar de reparar nele, por entre bugigangas, telas pintadas à mão e outras ofertas absolutamente idênticas a outras tantas que já tinha visto. 
À força de tanto o olhar, obriguei-lhe a atenção em mim. Chamou-me no seu espanhol e eu aproximei-me. Pediu-me ajuda... nas mãos um livro de inglês onde tentava aprender os rudimentos de uma língua que seria o seu ganha pão, o seu futuro. Talvez o receio tenha aproximado um familiar que não seria muito mais velho que eu, mas que o tempo não se coibira de deixar marcas prematuras na pele. E falámos... não sei precisar o tempo que falámos... a casa de telhado de colmo, o burro como meio de transporte, a fome que espreitava a cada esquina em época baixa... e o eterno sorriso na face e nos olhos, como se nada disso fosse de facto problema de monta. E a cada novo tema de conversa a nova pergunta... e isto, como se diz? ir respondendo foi a minha magra contribuição para aquela criança que provavelmente me perdeu por entre tantos outros rostos que foi encontrando a cada nova semana, que traz consigo o ganha pão vindo de terras distantes. Mas ele veio comigo, atravessou o oceano do tempo e seguirá em mim como exemplo de como uma criança aprende cedo que a melhor forma de viver é não apagar o sorriso mesmo enfrentando dificuldades que quem não vê tem dificuldade em imaginar... Não foi o luxo, as infrastruturas, não foram sequer as supostas lembranças que se trazem de uma lua, que era enorme por lá e que se queria de mel. Foi aquela criança que preencheu em grande plano o que guardo da minha viagem. Porque as minhas memórias se fazem muito mais com o sentir do que com o tão simples observar...




Em 17 de Agosto de 2010
Reeditado

Caminhos



Subimos a avenida, tentando arranjar estacionamento ainda difícil apesar da hora. Passa-me pela ideia que provavelmente há uns anos atrás, toda esta confusão para arranjar sitio para comer me traria alguma indigestão. Sentamo-nos e pedimos os petiscos ainda disponíveis. Estou diferente. É diferente a forma como encaro a vida, como encaro o que me acontece, até talvez como encaro os outros e a mim própria...
Um conjunto engraçado de gente que se juntou à mesa, quatro pessoas, todos divorciados, três completamente desconhecidos entre si, em torno de uma amiga em comum que aprecia a nossa presença num dia especial. As conversas vagueiam entre o trivial e desvendar de vidas pautadas por coisas boas e menos boas. Descobrem-se segredos, confessam-se penas, sonhos, esperanças entre piadas que vou contando para animar a noite e não deixar que a desesperança preencha espaços vazios. Ao fundo a música latina anima o ambiente, soltando notas e imagens através de um canal que me foi impossível identificar e à minha frente, talvez embalada pelas baladas, a vida do casal que se atreveu tentar de novo vai-se fortificando em carinhos e beijos. Deste lado da mesa a conversa gira em torno da educação dos filhos.Passam horas divertidas e alguém pede uma bebida. Não aceito, os quilómetros que me esperam e a noção de responsabilidade falam mais alto. Estou diferente, sinto-me diferente, demasiadas vezes a noção de responsabilidade me fez parar, quando devia ter avançado. Conheço-me o suficiente para saber os meus limites e decido aceitar. O travo doce e suave da bebida ligeiramente pastosa, misturada com a acidez do álcool sabe-me bem e permite-me uma ínfima sensação de felicidade por me conseguir libertar por momentos do fantasma da perfeição.
A noite chega ao fim. O carro estacionado sem cuidado entre os outros encontra-se agora sozinho, embora na avenida ainda circulem demasiadas luzes numa cidade que também quer teimar em não parar. Muitos mundos distantes se cruzam tão próximos nestas vias movimentadas.
De frente para o Marquês vejo passar-lhe por cima um avião com as suas luzes psicadélicas, e tenho a ilusão optica que o avião não vai falhar a cabeça do Marquês. Riu à gargalhada, por muito visionário que fosse, nunca o Marquês sonharia com pássaros de ferro a sobrevoar-lhe a cabeça.
Faço a rotunda e entro no túnel, obrigada a diminuir a velocidade pelos controlo de radar. Quantas vezes durante os últimos anos a minha vida me pareceu um túnel, obrigada a abrandar constantemente... Perdida em pensamentos, falho a saída para a ponte. Esta é uma das coisas que me agrada em Lisboa, é que tal como na vida, quando erramos o caminho podemos facilmente encontrar outra forma de seguirmos o nosso trajecto, basta procurar...