Dizem que tenho Alma de poeta. É possível, mas para além de poeta, sou mulher, fui criança, sou ser humano. Na grande maioria das vezes vejo e sinto coisas que só sei expressar por palavras, por imagens. É um jeito de ser... é o meu jeito de pôr a Alma no scriptum...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Liberdade ou loucura



Primeiro era o silêncio. O silêncio; como se das bocas alheias apenas o movimento dos lábios se distinguisse; nenhum som propagava o ar ( ou era o ar que se recusava a dar boleia aos sons que teimavam em sair daquelas bocas que mexiam sem parar). Depois veio o barulho. O barulho; e então era o som que me ocupava o pensamento, entrando sem pedir licença pelos tímpanos, tocando todas as campainhas do pensamento, que funcionava 24 horas por dia sem descanso, como se fosse a engrenagem de uma grande empresa que funcionava apenas com um funcionário. Finalmente as alucinações; essas destruíram as imagens de guardadas realidades, substituindo-as por imagens que  me escuso a afirmar que eram verdadeiras, eram projecções inventadas de alucinantes realidades que senti, mas afirmo: não vivi . Foram as alucinações que me trouxeram aqui, a este quarto, onde a alva brancura das paredes reflecte uma luz que ainda não me chegou a um interior quebrado, fendido.
Falava-vos das alucinações: era noite (pelo menos dormia); a voz chegou-me num sussurro imperceptível e despertou-me daquele sonhar em que se sonha estar acordado, mas dormindo se permanece. Só ela ( a voz) percorria os cantos do quarto, como que confundindo os meus sentidos para que não lhe pressentisse a direcção. Falava ( se era voz, falava, claro! embora fosse pouco clara); falava de um alguém que aqui e ali se preenchia com característica facilmente identificáveis por mim como um eu. Um eu distorcido ganhou forma,materializando-se à minha frente, mas com a voz desencontrada da sua localização. Convencia-me ( a voz) que era um eu, que era como eu, enchendo-me a memória com lembranças que eu não conhecia, dizendo-as minhas.
Houve um tempo em que perdi o controlo das minhas acções, a voz comandava todas as direcções para onde olhava, escolhia o objecto da minha atenção. Prendeu-me o interior, ocupou-me os espaços que eram meus e expulsou o eu que eu era, para dar lugar ao eu que supostamente seria. Em algum canto da razão, eu, assistia impávido ao ocupar da mente por um eu externo, que se dizia meu.  Permaneci parado, sem reacção, deixando a voz comandar.
Ao seu comando alheei-me do que me movia, deixado-me mover por um qualquer estranho plano de recuperação de algo que nunca tive.
Reprimido, o meu eu mantinha-se quieto, num canto do pensamento, avaliando cada acção, sabendo distinguir ainda, que não era eu mas a alucinação do meu eu que me mantinha alerta durante os dias.
A massa humana que se movia em meu redor, com todas as pressas, ocupações e sensações que externamente a estimula, não passava de amorfa presenta ignorando a batalha onde o meu silenciado eu, estudava a melhor forma de se libertar de um jugo em que ( percebi depois) quase todos os que orbitavam a meu redor se deixaram também mergulhar e submergir. Eramos iguais entre os iguais, presos a eus distantes do nosso eu, idolatrando sensações distantes da nossa essência, removendo imagens reais e recolhendo louvores por acções manipuladas. Fazíamos engrenar uma sociedade de bonecos possuídos por  exteriores parecenças, exteriores existências, vazios de um interior construído de autenticidade, da pluralidade da opinião própria.
Eis o que descobri: as alucinações eram conjuntas, a loucura sagrava à minha volta, todos comandados, todos possuídos, todos excomungados do seu próprio eu. 
Decidi agir, não poderia manter-me assim. As acções não são mais do que a demonstração dos medos ou certezas que nos ocupam o pensamento; agimos de acordo com a forma que (  na nossa consciência) nos irá trazer mais benefício, ou em último caso menos malefício.
Matei-o! Matei o meu eu perverso, o meu ditador, o eu que me ocupava a mente fazendo-me agir de forma sincronizada com outros eus ditadores, possuidores de outros corpos que me rodeavam. Infelizmente para o matar rasguei meu corpo, abri rios de sangue de onde jorravam os restos gritantes do expulso ocupante.
Cheguei aqui, ao quarto das paredes alvas, dias depois da expulsão, após o recobro do corpo estropiado. 
A paz chega-me pelo canto dos pássaros e pelo riso das crianças,  que na escola, do outro lado da larga avenida que  a separa o local onde me fecharam, aprendem a ser possuídos pelos eus comuns, que nos restringem.
Fecharam -me, sim. Considerado um perigo para a sociedade e para mim próprio, por me recusar a pensar pela cabeça dos eus, que nos querem impor o exterior que constroem para nós. 
Loucura, é do que me acusam; loucura por me recusar a manter-me escravo em nome de uma liberdade, que para sentir, sou obrigado a manter-me fisicamente preso.



Para a edição de Fevereiro da Fábrica de letras

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A escrevente




Sento-me, acendo a luz da secretária e viro-a para a parede. Necessito da sensação de escuro (talvez o ambiente seja essencial, não sei) como que a criar um espaço onde possa estar em sossego; só eu e o que estiver para vir. 
Geralmente não penso muito sobre o assunto: as palavras, as ideias, as imagens passeiam comigo (ou em mim) enquanto vou escrevendo, como se dialogassem comigo  (tal e qual como quando vi esta a imagem: foi como se me perguntassem: porque é que escreves?)
" Porque é que escrevo" (sorri): não sei; eis a resposta mais sincera que já dei a mim mesma. Sinceramente não sei. 
A música toca baixinho - lá mais atrás, num qualquer posto regional - e nem sequer consigo definir muito bem qual é a canção. 
Fará sentindo? 
Escrever sem saber porquê; toda a gente escreve (qualquer coisa pelo menos) e isso não faz dela uma escritora. Talvez uma escrevente (sim provavelmente será isso que sou, uma escrevente), dependente desta necessidade de me encontrar comigo e formar palavras que façam sentido para outros, ou não; não sei sequer se me farão sentido um dia. 
Não gosto de me encontrar com as minhas palavras: por isso calo muitas vezes a voz, para me encontrar de novo com as mesmas ideias em silêncio. É mais fácil assim, não fazem barulho; o que no fundo é uma incongruência, já que existe sempre demasiado barulho nos locais onde se encontra a minha voz. 
De tantas e tantas coisas escritas que se perderam (e a que dei asas e que hoje já não são realmente minhas) é assim neste formato que elas mais me satisfazem, porque não tenho verdadeiramente que me confrontar com o que já foi feito, se não quiser. Aqui tudo é de todos e não sou obrigada a reclamar algo que não sei sequer se realmente me pertence. 
Renasço em cada história, em cada devaneio que me escorre dos lábios quietos, sem um único movimento ou som que não seja a bater do teclado; toma corpo algo que no momento em que é escrito deixa imediatamente de ser meu. Quase como um parto, em que a mãe se esforça para lançar ao mundo algo, que a cada instante que passa, se torna mais e mais distante de si, que o gerou e lhe deu vida.
Não necessito de muita coisa para escrever, mas necessito da escrita para me sentir viva (até para sentir). Como se cada palavra fosse um sopro de vida, um novo fôlego, uma nova esperança de realizar algo que não sei o que é; mas é, ou sou. 
Escrevo porque me sinto viva. Vive um pouco mais de mim , longe de mim em cada coisa que escrevo: assim tento reinventar-me todos os dias. 
 A cada nova história um novo eu toma forma e cor, e dou um pouco de mim para cada um que se encontre nas minhas palavras.



O primeiro dia - Sérgio Godinho


A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

20/7/2010
Reeditado

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cenários incomuns



Existem por vezes certas coisas que parecem não encaixar.
Choveu: ao despertar a luz do sol - ainda a beijar as gotas anafadas de uma chuva que parecia não querer abrir as cortinas do dia - o inevitável aconteceu: no firmamento desenhou-se um esplendoroso arco íris a pincelar o céu  (ainda ou já  escuro) com as cores com que se pintam os sonhos. De súbito a agressiva chaminé iluminada teve uma companhia inesperada. Uma combinação incomum, mas que nem por isso intimidou o brilho do arco íris. A minha manhã começa  assim, com uma imagem clara e fotogénica de que não há lugares comuns para os instantes, e que a beleza ocorre em qualquer lugar, a qualquer momento, sem se importar com o aparente desajuste de cenário.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Retalhos da tradição



Ontem, por mera coincidência, encontrei-me à porta daquela que foi,  na minha terra, a grande precursora das lojas de utilidades. Ali havia de tudo, desde o mero alfinete até ao chapéu, passando pelas lanternas ou as passadeiras não esquecendo as toalhas de mesa.
O ambiente era agora de total desarrumação, contrastando com as imagens que me ficaram de desorganização organizada, numa casa onde havia de tudo. Espalham-se  agora, por entre o balcão e as prateleiras, os restos do que sobrou de um passado de movimento continuo, de alguém que buscava alguma coisa e sabia onde encontrar.
Fala-se hoje sobre o que ficou: os chapéus, de fabrico português provenientes das melhores fábricas da altura (falamos dos anos 60 do séc. passado) e outros artigos que ainda restam, quase intactos.
A mim, sempre me encantou a máquina registadora: imponente na sua luzidia altivez, ocupando lugar de destaque atrás do comprido e pesado balcão em madeira maciça; cumpriu a sua missão até ao fim, e ali ficará, pedindo um lugar de destaque num qualquer museu, que lhe dê a importância histórica que merece ter ( de fabrico português, quase que aposto).
O sr Décio vai fechar as portas. Os três que por ali o ouvimos, somos mais novos do que alguns dos artigos que repousam nas prateleiras - prontos para iniciar o adormecimento  a que todos os finais de história obrigam-, mas queremos guardar na memória os retalhos da nossa infância.
Não resisti a uma fotografia com a máquina que tanto me encantava, e o homem, que mesmo ao fim de todos estes anos - de ter visto o genuíno artigo português ser substituído por uma qualquer chinesice -, continua a falar do seu oficio como se estivesse pronto para vender tudo o que nas prateleiras um dia existiu.
É o amor à nossa arte que nos mantém sempre jovens no saber fazer. A loja envelheceu, o homem não pode lutar contra o tempo; mas o jeito de quem fez do falar com as pessoas o seu modo de vida permanece intacto, mesmo que entre elas exista um fosso de tantos anos quantos aqueles que são os meus, e mais alguns.
O arquivo da Câmara documentou o acontecimento: para que se lembre mais tarde a importância do estabelecimento na economia e na vida social locais. Eu guardarei na minha memória e partilho convosco, por medo que um dia, possam já não existir casas assim, de comercio tradicional, que vão morrendo aos poucos, por falta de alimento e inanimadas do movimento de outrora.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O cinzento da imensidão



Um emaranhado de ramos secos espreitam a imensidão da paisagem. As nuvens saturam de um cinzento que se faz imagem, o que poderia ser a leveza de um quadro pintado a frescas recordações. As verdes montanhas pintalgadas de branco - que não vingaram no meu enquadramento -  despovoaram as memórias; apenas o cinzento do céu permaneceu incólume, como se só ele tivesse ficado retido.
Onde buscar a cor? Onde pintar o céu de cores originais, não forçadas; de cores algures imaginadas? Lavando  as memórias de uma chuva que esvazie o silêncio do cinzento, talvez se possam ao arco iris roubar as cores,  espalha-las sem cobrar um preço imaginário, pintando de novo as imagens que não retive.
De que cor pintar o natural esbracejar de uma árvore que não controla as suas ramagens? Com que folhas cobrir a frieza de uma copa desnudada?
Falta-me a imaginação para retocar os defeitos da paisagem, faltam as cores; falta talvez a chuva, para que se molhem as secas saudades dessas imagens imperfeitas que não retive.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O meridiano

marca simbólica do ponto onde passa o meridiano de greenwich - Espanha


Divide longitudalmente o mundo, definindo o oriente e o ocidente. É o ponto zero, a referência horária; uma outra marca da incessante tentativa do Homem em organizar o mundo, a vida, as passagens, o tempo em que se gere.
São marcas simbólicas - que atravessam gerações e distâncias - quase imperceptíveis para quem passa, sem atentar as pequenas coisas.
Longitudes que misturam tempos e espaços; fazendo a junção entre o que se vê e o que sendo real não passa de uma mera contabilidade organizativa. Mas é essa contabilidade que nos vai pautando os dias, iniciando um ponto zero, finalizando num ponto desconhecido.
O nosso tempo é regido por demasiadas convenções, muitas vezes necessárias ao bom funcionamento das instituições, que são a base da sociedade. Assim organizando tudo, a Homem tem a falsa noção de controlo sobre a passagem do tempo, sobre o comando da vida; sobrepõe-se às velocidades dos horários, ao incontornável descontrolo que o destino pode instilar nos dias, dando significado e peso ao livre arbítrio.
Árbito de si mesmo, o Homem autocontrola-se gerando regras às quais - demasiadas vezes- não quer, nem sabe como seguir.
Infinito, divide-se entre o querer e o poder, mostrando ao mundo as marcas do poder, escondendo - sempre que pode - as marcas do querer. É no meio termo, no ponto zero, no equilíbrio que se define tudo o resto. Cada meridiano da vida, define uma nova forma de definir o tempo, de encarar o espaço,  de equilibrar a vida.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um pouco mais do que melhor

foto de Maria José Amorim retirada do site Olhares


Passam as festas, passam as folgas, gasta-se a folga de ar que nos inspira a esperar novos momentos; e tudo volta ao inicio.
Acorda-se, o mesmo lençol, o mesmo quarto, o mesmo cheiro a vida, com novas diretrizes -  dirigem-se sentidos, impulsionam-se vontades.
Os móveis mantém-se imóveis, na posição em que os deixamos no ano a que por passado se chama velho; o novo que começa no um do primeiro a quem chamam Janeiro ditará novas decorações;
11 dias após o solisticio, o ano 11 do novo milénio traz consigo a esperança de que, o que se julga ser mau, seja um pouco mais do que melhor que o que passou.
Mudamos os móveis, aprumamos as intenções e tomamos rédeas ao caminho, que a olhar para trás só se pode cair - as poças de lama que a chuva deixa secarão com o chegar do sol - e nem só de quebras se faz uma página.


Acordar

 Um dia,quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes...Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa:
a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da 
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada para fora
de nós, é tudo o que temos nesta vida.

Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês