segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Fragilidades
Re_ nascer
O cansaço depois do esforço,
o descanso depois do cansaço.
Um fio que mantém ainda a ligação.
O corte indolor
O grito de liberdade.
A noção de fragilidade
Um abraço que contém candura
no calor de um aconchego
Podia ser uma vez,
a primeira de todas as horas que se contarão depois
mas repete-se indefinidamente pela eternidade que dura
o tambor que marca o ritmo da vida
Repete e repete, bate e
uma sobrepõe outra: os corpos nascem,
crescem e amadurecem
mas os cortes permanecem
em gritos de liberdade,
a pedirem o calor
de um abraço
e intimidade
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Receita de conquistas
imagem retirada da internet
A que sabe uma conquista?
A doce açucarado de mole consistência?
A tenro refugado em ponto certo, que faz salivar o esfomeado por alguma coisa?
De que serve chegar a algum lado, se à chegada ninguém te espera?
A meta está solitária, cortas a fita sozinha e a felicidade da tua classificação será apenas conhecida pelas pedras da calçada, que te vêm chegar.
O prato e a sobremesa ficam vazios, e o estômago não saciado aguarda por mais; assim se vai de conquista em conquista, procurando saciar uma fome que não é de pão, uma vontade que não é da chegada, nem tão pouco da partida.
Assim se tapam com as faltas, que não apontamos na lista, e nos obrigamos a esquecer - atafolhando o carrinho de compras de conquistas de que apenas necessitamos para tapar uma falta - um vazio que não se preenche só de matéria.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Das certezas e dos sonhos

Foto de Eduardo Costa
retirada do site olhares
retirada do site olhares
Das certezas do que somos, nasce a maior de todas as incertezas...onde poderemos chegar?
Se existem tempos de olhar para dentro, de baixar a cabeça e os braços, de nos deixarmos levar como a corrente de um rio (que corre em movimento desordenado) entre rápidos e quedas de água em força desmedida - haverá em troca o tempo de levantar a cabeça, encher do ar que nos rodeia o peito que anseia pela pureza do que poderá ser nosso. Será o sonho que nos comanda ou as pequenas certezas das vitórias que podemos alcançar?
E um sonho não será tanto mais extasiante quanto a certeza de que pode ser realizado?
Pequenos nadas que nos formam, e nos enformam, são os sonhos a liberdade que se apregoa - mas que se aprisiona nas algemas acinzentadas dos dias iguais.
Não são os protagonismos, nem as esperanças, nem sequer o que foi ou poderia ter sido. É o que será, que nos impulsiona em frente, que nos molda os sonhos vindoros, sem sequer se importar com o restolho dos sonhos perdidos - que ficam ultrapassados, pincelando aqui e ali alguns pormenores de vida que nunca se irão perder...
O que foi molda o que será e são as certezas que geram todas as incertezas...
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Acima de todos os males
Quanto de sacrifício vale o sonho? Quanto de nós é apenas o recomeçar contínuo de algo que se persegue? Aquilo que cabe em cada um, é exactamente aquilo que se procura; nem sempre os dias se pautam por boas notas, nem sempre as palavras definem a exactidão do momento presente.
Ao virar da esquina, a realidade colide e quebra-se, estilhaçando em pequenos vidros partidos o que a mão não segurou.Peças coladas em fragmentos, que desfeiam o que a noite sonhou; palavras, que se definem em dicionários que inventamos a cada momento da vida: semânticas falhadas, gramáticas desorganizadas em regras obsoletas.A cada significado amorfo de vidas paradas, recordo sentenças de juízes que a vida reformou.
O livro descansa ainda em mãos que o inventam a cada letra: a casuística de histórias de terror - onde imperam dores alheias - transformadas em sangramento do próprio peito, que se quebra em mãos de outros donos que as seguram.
Pois que, do nada me inventei, e para o sonho caminho por raios luares que quebram rotinas.
O coração que bateu descompassado, encontra no ritmo das sentenças que formam sentidos, razões para continuar.
Sem perder de vista a chave mestra que um dia abriu a caixa fechada - de onde se soltaram melodias -, retrocedo a um tempo onde a trave era o amor próprio, que desabou em implosão; e do pó de um tempo nascido de teias que as aranhas não teceram, a natureza espalha-se da alma ao verdadeiro ser: que abriu a caixa de Pandora e descobriu por último, o significado da esperança acima de todos os males...
reeditado
publicado originalmente a 27.04.2010
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
O encontro tinha sido combinado naquele local, àquela hora. Ela esperava.
O fresco da noite fê-la compor o casaco para se proteger do frio.
Irritava-a esperar, sempre detestara esperas, o seu feitio irrequieto fazia-a abominar os tempos parados; ainda mais ali, num lugar onde não passava quase ninguém.
Perguntara-lhe sobre o porquê daquele lugar; ele sabia que ela tinha medo de locais solitários, e junto àquela ponte, quase ninguém passava àquela hora. Ele desculpara-se com a proximidade do local onde se encontrava e ela aceitou, afinal qualquer momento perto dele era sempre um momento feliz, mesmo que curto.
A vida pode ser ingrata, levou tanto tempo para encontrar alguém com quem os silêncios fossem tão preenchidos como as palavras, e só conseguiam estar juntos por breves momentos, devido à intensa vida profissional de ambos.
Envolta nos pensamentos, aproximou-se da ponte, para observar o leito do rio que reflectia as luzes da cidade. Não se via ninguém e ele não chegava. Começava a ficar nervosa, inquieta. Sentia-se observada como se alguém, de longe, lhe controlasse os movimentos. Chamou por ele, na tentativa de perceber se era mais uma das suas tantas brincadeiras, mas ninguém respondeu. Ouviu sons de passos, do outro lado da ponte, mas não viu ninguém.
O coração batia já descompassado e o pânico queria tomar conta dela. Pensou para si : tem juizo, é a tua imaginação, apenas e só a tua imaginação. De novo o som dos passos. Distinguiu um vulto a apressar o passo na sua direcção e não consegui controlar o pânico. O corpo respondeu aos sinais e ela começou a correr desesperadamente. Na mente passavam-lhe imagens de ressentimento. Porquê aquele local, porquê aquele atraso. Se corria agora, fugindo do agressor, era culpa dele, só dele que não tinha pensado na sua segurança. Chorando e correndo parecia-lhe ouvir os passos cada vez mais próximos e olhou para trás para confirmar a proximidade. Não viu ninguém.
Ao voltar-se de novo esbarrou em alguém e não conseguiu sufocar o grito de terror.
Era ele, estava nos seus braços e não conseguia parar choro e o descontrolo que sentia, batendo-lhe em defesa nos braços e no peito.
O que foi?
Vem aí, ele vem aí e a culpa é tua.
Quem é que aí vem?
Olharam ambos na direcção que ela apontava e não se via, ou ouvia, qualquer movimento.
Ele abraçou-a e falou devagar e em tom doce, como se com uma criança assustada:
- Já passou, desculpa, não te devia ter deixado tanto tempo à espera, mas não consegui evitar. Além disso o teu telefone vai sempre para as mensagens.
Deixara o telemóvel em casa, que imprudência.
Agora tudo aquilo lhe parecia ridiculo, mas só agora, que estava finalmente segura nos seus braços.
reeditado publicado originalmente a 17.7.2010
foto retirada da internet
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Grão a grão
Quanto tempo leva uma flor a desabrochar?
Quanto tempo leva, até o tempo a levar?
Não raras vezes, a mais simples beleza nasce no meio da solidão; perdida, até ser encontrada pela luz ( ou será ela que a procura?)
É uma luta pela vivência, no verde deserto dos dias.
Persistente, insiste em colorir o seu pedaço de ilusão, pronta a ser capturada por o mais meticuloso olhar.
São os Deuses que pintam as telas da vida, mas é o Homem, na sua efemeridade, que goza o prazer de desfrutar de toda a beleza; porque é cada grão da ampulheta da vida, que nos foi concedido para gastar, que significa o tudo onde queremos chegar.
E pensar que este texto se me " arrebentou" no pensamento, por causa de ti
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
O milagre das possiblidades
Por vezes existem coisas que parecem não se misturar. O inerte e o vivo não se transformam em uno: é esta a regra. Toda a regra tem uma excepção e é a excepção que confirma a regra. Esta trepadeira cresceu e envolveu o gradeamento, fazendo das suas limitações a forma de se expandir.
Os obstáculos podem sempre ser encarados das mais variadas perspectivas. São essas perspectivas que influenciam os resultados que podemos obter. Desistir e continuar são duas das possibilidades; desenvolver, imaginar e criar as nossas próprias formas de enfrentar a vida, é uma outra possibilidade.
O mundo não nos persegue, somos nós que perseguimos o mundo. Descobrindo o que se procura, encontram-se as várias faces que tudo pode ter. Encarar, sobrepor, desenvolver e continuar sempre, mesmo que para isso se desista agora, para voltar a encontrar mais tarde.
Dos sonhos não se desiste; apenas podemos deixar-nos adormecer sobre eles para que se tornem ainda mais inebriantes.Um sonho é uma excepção nossa, às regras impostas por outros: é o inerte que encontra vida dentro do nosso ser; é o milagre da possibilidade transformado em poder sobre a nossa realidade.
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